Blog da Poesia

Mais poemas para o seu dia

12/02/2025 10:42 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Para celebrar a vida, poesia.

A leitura como um convite para imersão no mundo da subjetividade. Afinal, como dizia Leminski, A ARTE SÓ EXISTE PORQUE A VIDA NÃO BASTA.

Eis alguns poemas de grandes autores...

 

Não Sei – Cora Coralina

Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

 

Poética – Vinicíus de Moraes

De manhã escureço

De dia tardo

 De tarde anoiteço

 De noite ardo.

A oeste a morte

 Contra quem vivo

Do sul cativo

 O este é meu norte.

Outros que contem

 Passo por passo: Eu morro ontem

Nasço amanhã

 Ando onde há espaço: – Meu tempo é quando.

 

Presságio – Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar. Sabe bem olhar pra ela,

Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente

 Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente… Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse

 Pra saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala;

 Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

 Porque lhe estou a falar…

 

Ausência – Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.

 

Motivo – Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

 

O apanhador de desperdícios – Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim um atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

O Cão Sem Plumas – João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio como uma rua é passada por um cachorro; uma fruta por uma espada. O rio ora lembrava a língua mansa de um cão ora o ventre triste de um cão, ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão. Aquele rio era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul, da fonte cor-de-rosa, da água do copo de água, da água de cântaro, dos peixes de água, da brisa na água. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. Sabia da lama como de uma mucosa. Devia saber dos povos. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. Aquele rio jamais se abre aos peixes, ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes. Jamais se abre em peixes.

 

Precisão – Clarice Lispector

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

 

Adminimistério – Paulo Leminski

Quando o mistério chegar, já vai me encontrar dormindo, metade dando pro sábado, outra metade, domingo. Não haja som nem silêncio, quando o mistério aumentar. Silêncio é coisa sem senso, não cesso de observar. Mistério, algo que, penso, mais tempo, menos lugar. Quando o mistério voltar, meu sono esteja tão solto, nem haja susto no mundo que possa me sustentar. Meia-noite, livro aberto. Mariposas e mosquitos pousam no texto incerto. Seria o branco da folha, luz que parece objeto? Quem sabe o cheiro do preto, que cai ali como um resto? Ou seria que os insetos descobriram parentesco com as letras do alfabeto?

 

Os Poemas – Mário Quintana

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti…

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