Blog da Poesia
Misticismo, surrealismo e engajamento social e racial na poesia de Jorge de Lima
Nascido em União dos Palmares, Alagoas, em 1893, foi um intelectual dinâmico: historiador, pintor, fotógrafo, ensaísta, biógrafo e poeta. Sua estreia na poesia se deu aos 21 anos de idade, com o livro XIV Alexandrinos, extremamente elogiada pela critica literária da época. O acendedor de lampiões, poema de destaque da obra, foi escrito quando Jorge de Lima tinha apenas 14 anos e ainda estava na escola.
Seu livro de estreia foi publicado em 1914, antes da semana de 22, portanto, não se tratava de uma obra modernista. Pelo contrário, em seus primeiros versos, o poeta alagoano estava bastante envolvido com a estética parnasiana, caracterizada pela valorização da forma, pela escrita objetiva e pela preferência por sonetos. Um dos autores que mais influenciaram a produção de Jorge de Lima foi um dos maiores parnasianos, Olavo Bilac;
No entanto, os anos se passaram e a semana da arte moderna chegou.
Os artistas brasileiros, de um modo geral, produziram inspirado nas transformações políticas, sociais, culturais e artísticas. Com Jorge de Lima, não foi diferente.
Jorge de Lima passou a integrar o movimento modernista a partir da sua segunda fase, ou então, fase de consolidação.
Em sua poesia, Jorge adotou um forte teor crítico e social, com base em temas que envolviam questões como a denúncia de preconceito. Outra característica importante foi a temática do negro na sociedade e as explorações para a os mencionados preconceitos, além de temas como as desigualdades sociais e políticos. Um de seus livros mais importantes é Poemas Negros.
Nesta obra, o autor explora a história dos negros no período colonial do Brasil, retratando a escravidão e o modo desumano como eles eram tratados. Poemas como Banguê e Essa negra fulô são escritos dessa fase e retratam prioritariamente a condição do negro na sociedade brasileira. O autor também fez uso de expressões e vocabulário de matriz africana em sua obra. Xangô é outro poema significativo do autor e que aborda a temática e a religiosidade africana presente em nosso país.
No ano anterior a sua morte, Jorge de Lima, publica seu último livro, Invenção de Orfeu.
O livro faz referência a Orfeu, figura lendária da mitologia grega, conhecida pelo dom da música e da poesia. Segunda a mitologia, o canto de Orfeu, poderia encantar de pássaro a pedras, colocando-as para dançar. Orfeu era casado com Eurídice, que, ao ser picada por uma cobra, morre e vai para o inferno. A trajetória de Orfeu, então, é sua ida para o inferno a fim de resgatar seu amor.
É a partir dessa figura mitologia que Jorge de Lima compõe sua obra, mas em uma perspectiva inversa; o Orfeu de Lima, vai do inferno para a vida, explorando o misticismo e o surrealismos, características que também foram preponderantes em sua produção escrita.
IMPORTANTE
A obra de Jorge de Lima está ligada a 3 perspectivas que vão se formando à medida que o poeta avança em sua produção literária.
Na primeira delas, o autor segue os ideais parnasianos; na segunda, volta seu olhar para o Nordeste, adotando um regionalismo que contribui para sua preocupação com a escravidão e as desigualdades sociais e raciais; na terceira, a temática é de cunho religioso e assim, como seu amigo Murilo Mendes, busca superar as contradições do mundo moderno, Misticismo e surrealismo são características presentes e marcantes em sua obra.
O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!
Essa Negra Fulô
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô
Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!
ETERNIDADE
ELE REVIU-SE:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.
Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.
Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
morrendo
numa estrela.
Ele despiu-se
de quê
De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.
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