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Vitória: pela janela

20/03/2025 10:03 - por Jorge Ghiorzi jghiorzi@gmail.com

A chegada do filme Vitória aos cinemas ocorre em um momento particularmente especial para a visibilidade de Fernanda Montenegro e qualquer projeto que conte com sua participação. A recente exposição midiática de Fernanda Torres, impulsionada pelos prêmios e indicações de Ainda Estou Aqui, contribuiu para destacar o trabalho significativo das atrizes, mãe e filha, para o cinema nacional.

No entanto, independentemente desse reforço na divulgação, a presença de Fernanda Montenegro no elenco, por si só, já é mais do que suficiente para atrair as atenções para seu novo filme. Aos 94 anos, a atriz segue como um dos maiores ícones da dramaturgia brasileira, e sua participação em Vitória não só gera uma expectativa natural em torno da obra, mas também promove uma reflexão sobre sua trajetória e legado. Assim, mãe e filha, ambas indicadas ao Oscar, estão simultaneamente em cartaz, cada uma em um projeto distinto.

Há, ainda, uma outra conexão significativa entre os dois filmes. Vitória foi dirigido por Andrucha Waddington, cineasta conhecido por obras como Eu, Tu, Eles (2000) e Casa de Areia (2005), este último protagonizado pelas duas Fernandas. Waddington, além de ser um dos nomes de destaque do cinema brasileiro contemporâneo, é marido de Fernanda Torres e, consequentemente, genro de Fernanda Montenegro. Essa relação familiar e artística cria uma dinâmica singular, transformando o filme em um projeto que une não apenas talentos, mas também histórias de vida profundamente entrelaçadas.

Dessa forma, o filme transcende a mera colaboração profissional, configurando-se como um encontro de afetos e relações familiares. Para Fernanda Montenegro, o longa-metragem representa não apenas um novo capítulo em sua já brilhante carreira, mas também uma oportunidade para o público a revisitar em uma narrativa que dialoga tanto com sua trajetória pessoal quanto artística, reafirmando seu lugar como uma das maiores intérpretes do cinema e do teatro brasileiros. Segundo a própria atriz, este será seu penúltimo trabalho no cinema. Seu derradeiro trabalho, a comédia Velhos Bandidos, ainda em produção, será lançado em breve

A trama de Vitória acompanha uma senhora solitária que, aflita com a violência que passa a tomar conta de sua vizinhança, começa a filmar da janela de seu apartamento. A idosa registra a movimentação de traficantes de drogas da região durante meses, com a intenção de cooperar com o trabalho da polícia. Sua atitude corajosa chama a atenção de um jornalista, que faz amizade com Vitória e tenta ajudá-la nessa missão.

Baseado na história real de Joana Zeferino da Paz, que viveu anos sob anonimato forçado no programa de proteção a testemunhas, o filme retrata sua vida sob o pseudônimo de Dona Vitória. Ela se tornou um símbolo de luta pela justiça ao registrar, com uma câmera, a movimentação criminosa da quadrilha que atuava em sua comunidade.

Com direção e desempenhos sensíveis, Vitória não apenas homenageia a memória de uma figura real, mas também celebra a força e a complexidade das mulheres brasileiras, em uma trama que mistura drama, história e afeto. A presença de Fernanda Montenegro no papel principal eleva o filme a um patamar ainda mais especial, conectando a trajetória da personagem à própria história da atriz, uma mulher que, assim como Vitória, construiu uma carreira marcada por resistência e superação.

Em sua conclusão, Vitória se revela como um filme necessário, que resgata a importância de narrativas inspiradas em pessoas comuns que, diante de circunstâncias adversas, transformam-se em exemplos de coragem e determinação. A obra não só honra a memória de Joana Zeferino da Paz, mas também nos convida a refletir sobre o papel do indivíduo na luta por justiça e transformação social.

Ao unir a força de uma história real ao talento de Fernanda Montenegro e à sensibilidade de Andrucha Waddington, Vitória se consolida como um tributo às personagens relevantes, porém invisíveis, do passado, lembrando-nos da importância de resistir, narrar e preservar nossas memórias.

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